Teatro e ciência se encontram em apresentação sobre Doença de Chagas

No dia 13 de abril, o auditório do Instituto de Tecnologia do Paraná (Tecpar), em Curitiba, recebeu a apresentação da peça Coração em Chagas, encenada pelo Grupo de Teatro Científico da Universidade Estadual de Ponta Grossa. A atividade integrou as ações alusivas ao Dia Mundial da Doença de Chagas, celebrado em 14 de abril.
A data foi instituída em 2019 pela Organização Mundial da Saúde, em conjunto com entidades internacionais, e remete a um marco histórico da ciência brasileira: o diagnóstico do primeiro caso humano da doença, realizado em 1909 pelo médico e pesquisador Carlos Chagas, na paciente Berenice Soares de Moura.
Causada pelo protozoário Trypanosoma cruzi, a doença de Chagas é transmitida principalmente pelo inseto conhecido como barbeiro, além de vias como transmissão congênita, transfusão sanguínea e ingestão de alimentos contaminados. Muitas vezes silenciosa na fase inicial, pode evoluir para quadros crônicos graves, com comprometimento cardíaco e digestivo, o que reforça a importância do diagnóstico precoce e do acesso ao cuidado.
Ao propor um diálogo entre arte e ciência, a peça apresentou, de forma sensível e acessível, aspectos históricos, sociais e científicos relacionados à doença. A narrativa destaca não apenas as descobertas de Carlos Chagas, mas também o contexto social em que elas ocorreram, evidenciando como a ciência se constrói a partir da realidade vivida pelas populações.
Para o diretor da Fiocruz Paraná, Fabiano Figueiredo, iniciativas como essa ampliam o alcance do conhecimento científico. “Quando a ciência encontra a arte, conseguimos tocar as pessoas de uma forma diferente. A Doença de Chagas ainda é um desafio de saúde pública e ações como essa ajudam a dar visibilidade ao tema, aproximando o conhecimento da sociedade e reforçando a importância da pesquisa, da prevenção e do cuidado.”
A vice-diretora de Ensino, Informação e Comunicação da Fiocruz Paraná, Letusa Albrecht, destacou o papel da comunicação científica na promoção da saúde. “A peça mostra como é fundamental traduzir o conhecimento científico para diferentes públicos. Falar sobre a Doença de Chagas por meio do teatro amplia a compreensão, sensibiliza e contribui para que mais pessoas reconheçam a importância da prevenção, do diagnóstico e das condições sociais envolvidas na transmissão da doença.”
A atriz Leila Inês Fuman Freire, professora da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) e integrante do elenco, ressaltou o desafio e a potência da apresentação diante de um público especializado. “Apresentar ‘Coração em Chagas’ para pesquisadores dá um frio na barriga, porque estamos falando com quem conhece profundamente o tema. Nosso papel é fazer divulgação científica de forma acessível. O teatro não entrega apenas informação, ele cria uma experiência. E essa experiência pode provocar novos olhares, inclusive em quem já está no laboratório, trabalhando com a doença.”
Segundo ela, a proposta é despertar questionamentos e aproximar a ciência do cotidiano das pessoas. “Muita gente acha que a Doença de Chagas não existe mais, mas ela continua presente. Quando levamos a peça para escolas e outros espaços, percebemos que o público começa a reconhecer essa realidade e entender que pode cobrar políticas públicas, investimento em ciência e melhores condições de vida.”
Criado em 2022, o Grupo de Teatro Científico da UEPG é um projeto de extensão que reúne professores, estudantes e membros da comunidade. Com uma proposta de divulgação científica lúdica e itinerante, o grupo já percorreu diferentes estados brasileiros com peças autorais como Coração em Chagas, Assist.IA e Pingo.
A iniciativa reforça um dos principais objetivos do Dia Mundial da Doença de Chagas: dar visibilidade a uma condição ainda negligenciada, promover o acesso equitativo ao cuidado e alertar para a necessidade de melhorias nas condições de moradia, fator essencial para o controle do vetor.
Ao transformar conhecimento em experiência, o encontro entre teatro e ciência mostra que comunicar também é uma forma de cuidar.





